Recolhimento de medicamentos: quais falhas toxicológicas e de qualidade levam ao recall

Recolhimento de medicamentos: quais falhas toxicológicas e de qualidade levam ao recall?

O recolhimento de medicamentos (recall) representa uma das medidas mais importantes para a proteção da saúde pública. Quando um produto apresenta desvios que possam comprometer sua qualidade, segurança ou eficácia, as empresas e autoridades sanitárias podem determinar sua retirada do mercado.

Embora muitos recalls estejam associados a problemas de fabricação, diversas falhas toxicológicas também podem levar ao recolhimento de lotes de medicamentos. Conhecer essas causas é fundamental para profissionais das áreas de qualidade, desenvolvimento, toxicologia e assuntos regulatórios.

1. Contaminação por partículas estranhas

A presença de partículas visíveis, como fragmentos de vidro, borracha, metal ou plástico, é uma das causas mais frequentes de recolhimento.

Essas partículas podem surgir durante a fabricação, envase ou fechamento das embalagens e representam riscos físicos ao paciente, especialmente em produtos injetáveis.

Além do impacto na qualidade, a ingestão ou administração dessas partículas pode causar danos mecânicos e reações adversas.

2. Contaminação microbiológica

Falhas no controle microbiológico podem resultar na presença de bactérias, fungos ou endotoxinas em medicamentos.

Produtos estéreis, como soluções injetáveis e oftálmicas, exigem controles rigorosos, pois a contaminação pode causar infecções graves e colocar pacientes em risco.

Problemas de limpeza, sanitização inadequada ou falhas no ambiente produtivo são causas comuns desse tipo de desvio.

3. Impurezas químicas e substâncias tóxicas

A identificação de impurezas acima dos limites aceitáveis também pode levar ao recall.

Nos últimos anos, a detecção de nitrosaminas em diversos medicamentos chamou atenção mundial devido ao potencial carcinogênico dessas substâncias.

Impurezas podem ser geradas durante a síntese do princípio ativo, degradação do produto ou interação entre componentes da formulação.

A avaliação toxicológica dessas substâncias é essencial para definir os riscos aos pacientes e estabelecer limites seguros.

4. Erros de potência ou dosagem

Medicamentos com quantidade incorreta de princípio ativo podem apresentar falta de eficácia ou aumento do risco de toxicidade.

Teores abaixo da especificação podem comprometer o tratamento, enquanto concentrações acima do limite podem aumentar a ocorrência de eventos adversos.

Falhas analíticas, problemas de mistura ou desvios no processo produtivo estão entre as principais causas.

5. Contaminação cruzada

A contaminação cruzada ocorre quando resíduos de um produto alcançam outro medicamento fabricado na mesma instalação.

Esse problema pode ser particularmente crítico para substâncias altamente potentes, sensibilizantes ou genotóxicas.

Por esse motivo, conceitos como PDE (Permitted Daily Exposure) e HBEL (Health-Based Exposure Limits) tornaram-se fundamentais para a definição de limites de limpeza e estratégias de controle.

O papel da toxicologia na prevenção de recalls

A toxicologia desempenha um papel cada vez mais importante na indústria farmacêutica. Avaliações de impurezas, definição de limites de exposição e caracterização de riscos auxiliam na tomada de decisões e na prevenção de desvios que possam resultar em recolhimentos.

A integração entre toxicologia, qualidade e produção permite identificar riscos precocemente e implementar medidas preventivas ao longo do ciclo de vida do medicamento.

Conclusão

Os recalls de medicamentos podem ter origem em falhas de qualidade, problemas microbiológicos, contaminações químicas ou questões toxicológicas. Com o avanço das exigências regulatórias, a avaliação baseada em risco tornou-se uma ferramenta indispensável para garantir a segurança dos pacientes.

Investir em controles robustos, monitoramento contínuo e avaliações toxicológicas adequadas contribui não apenas para a conformidade regulatória, mas também para a prevenção de eventos que possam comprometer a saúde pública.

Referências

Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Boas Práticas de Fabricação de Medicamentos – RDC nº 658/2022.

International Council for Harmonisation (ICH). Guideline Q3A(R2): Impurities in New Drug Substances.

International Council for Harmonisation (ICH). Guideline M7(R2): Assessment and Control of DNA Reactive (Mutagenic) Impurities in Pharmaceuticals.

PIC/S. PI 046 – Guidance on Setting Health Based Exposure Limits.

World Health Organization (WHO). WHO Good Manufacturing Practices for Pharmaceutical Products.

European Medicines Agency (EMA). Lessons learnt from presence of nitrosamines in medicines.